Pular para o conteúdo principal

O escritor como um filho da puta




John Berger no The Guardian, em 12/12/2014:
"A linguagem é um corpo, uma criatura viva, cuja fisionomia é verbal e as entranhas, linguísticas [...]. 
Depois de escrever algumas poucas linhas, eu deixo as palavras escorregarem de volta para dentro da criatura. E ali, elas são imediatamente reconhecidas e saudadas por uma hóstia de outras palavras com quem elas têm uma afinidade semântica, ou uma relação de oposição, ou de metáfora ou de aliteração ou de ritmo. Eu ouço a sua confabulação. Em assembléia, elas estão debatendo o uso que eu fiz das palavras que escolhi. Elas estão questionando os papéis que lhes atribuí. 
Então eu modifico as linhas, mudo uma palavra ou duas, e submeto-as novamente à criatura. Outra confabulação inicia-se. E a coisa segue assim até que se ouve um suave murmúrio de consentimento provisório. Então eu sigo para o próximo parágrafo. 
Outra confabulação inicia-se... 
As pessoas podem me chamar de escritor à vontade. Para mim mesmo, eu sou o filho de uma puta - e você pode adivinhar de que puta estou falando, não?"
(Tradução de Héber Sales)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O que é um poema

Um poema é aquele texto cujo significado não pode ser dito a não ser daquela maneira, afirmou Ferreira Gullar nesta entrevista.

É uma tese ousada, que desafia o senso comum, tão acostumados que estamos a entender um discurso qualquer por meio de um outro que o explique, como se uma coisa valesse pela outra. Merece uma boa discussão.


Se aceitamos a ideia do poeta, podemos questionar de que serve a leitura crítica de um poema se o seu significado não pode ser expresso de uma outra forma. E o que dizer da tradução? Impossível.

Mas a definição do Gullar tem o mérito de revelar de que padecem os poetas em seus devaneios líricos: a troca de uma palavra apenas, uma só vírgula que mude de lugar, um ponto final que se ponha ou se tire, a recorrência de um som ao longo de um trecho, um verso com uma sílaba a menos, etc. - qualquer uma dessas pequeninas coisas podem alterar o significado de um poema.

De certo modo, essa não é uma experiência estranha às nossas conversas do dia a dia, quando bagu…

Wordtrack for a long play

Na próxima quarta-feira, 07/06, às 21:00, farei a primeira apresentação do meu solo de spoken word Quem anda distraído não sonha acordado, no XIX Seminário de Línguas e Literatura do curso de Letras do UNASP, em Engenheiro Coelho.

O pocket show, que mistura alguns dos meus poemas e crônicas com músicas remixadas, seria lançado no dia 08/07 apenas, no Espaço Luzeart, em Mogi Guaçu, mas decidi fazer uma pré-estréia ao ser convidado para esse evento. A performance propõe, por meio de uma experiência estética, uma reflexão sobre a imaginação literária. O set list do espetáculo, vocês podem ouvir aqui.

Quem anda distraído não sonha acordado

Héber Sales


Muita gente diz: se você prestar atenção, vai perceber a realidade como ela é. Eu digo, porém, que se você de fato prestar atenção, primeiro, vai sonhar, e depois, se continuar atento, verá que a realidade e o sonho são feitos da mesma matéria.

Os que viajam com pressa não sabem disso. Para eles, a distância entre dois pontos é calculada em km ou minutos, elementos que da realidade nada têm. Não têm, por exemplo, aquelas quatro montanhas e três vales que separam a tua casa da minha. Se eles prestassem um pouco mais de atenção, veriam que a estrada, como a cidade, também conta com os seus quarteirões: depois de passar por três cumes, você dobra o último deles e chega onde eu moro.

Esse percurso pode ter os 23 km assinalados naquela placa oficial à beira do asfalto, ou pode ter muitos mais. Depende do estado de espírito de quem nele transita. A saudade, já descobrimos, costuma encompridar os caminhos. Também acontece de, por não desejarmos chegar logo, chegarmos mais rapidam…