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Mostrando postagens de Agosto, 2016

IDEALISMO

Seu corpo adoece, você
não. Luta contra ela, a doença,
e cai em si:
seu corpo é também outra coisa
que lhe acomete. A sua alma,
íntima e inviolável,
tão pouco lhe pertence.
Nela prospera um alienígena. Note,
quantas vezes você barganha com ela
"quero uma porção de alegria"
enquanto ela entrega-lhe apenas tristeza? Você,

essa ideia que nunca lhe deixa
ou passa
até que um dia
também passa.


PALAVRAS AO VENTO

Muitos usam a palavra amor
e confiam bastante nela.
Eu não confio.
Eu confio em outras palavras dela.

Às vezes, se me proíbe um carinho,
Não quer se apegar, me explica.
E mesmo assim quer saber de mim - exige:
"Desembucha".

E depois que tanto falo,
sem clemência me responde:
"Não concordo totalmente".
Eu? Não me assusto com isso -
no seu rosto encontro sempre um sorriso.

E então eu confio.
E então eu entendo.
É assim que deve ser o amor.


Clichês, ansiolíticos e outras facilidades

Vou parar de fazer pouco caso, questionar e tripudiar de rótulos e clichês. Eles não merecem a má fama que comento. Devo reconhecer confortavelmente que sim, eles têm muita utilidade. Vou carregar alguns comigo por conveniência. Terei sempre esses bons ansiolíticos para distribuir aos companheiros de jornada, especialmente àqueles que caminham comigo não por sua livre escolha mas porque deram o azar de ter que compartilhar alguma obrigação com um notório ranzinza de bom humor.

Logo de manhã, se me responderem "tudo bem" e me perguntarem idem, não direi mais coisas do tipo "como de costume, nem tudo bem, mas por costume, tudo bem". É no mínimo desagradável para a maioria das pessoas, apesar de ser a mais pura verdade, ou talvez por ser exatamente isso - quem quer ser acordado de um sonho bom? Alguns indivíduos ficam levemente consternados e têm um tique nervoso na hora, outros ficam sem jeito, outros riem mas não sabem bem do que, talvez para parecerem espertos ou …

RÉQUIEM EM SI MAIOR

1.

Não sou de reclamar, estou seguro,
Nem a vida louvo em demasia.
Atento, nela ainda mais encontro
Sempre um outro tanto de poesia.

Em um solene minuto de silêncio
Por exemplo - como demora -,
Vejo que os que falam a toda hora
Estão só a praticar um passatempo.

E no funeral em que muitos choram,
Percebo: é com os vivos que a morte anda -
Os mortos estão finalmente livres
Da mais severa pedagoga.

2.

Outro dia, com muito pesar me avisaram
Que o meu velho pai estava morto.
De fato, eu até vi no caixão um corpo,
Mas não era ele, isso eu tenho bem claro.

De manhã ainda, um pouco antes do velório,
Um belo garoto, cabeludo e castanho,
com muita alegria e doçura me falou:
Meu tio, é pra você ficar mais à vontade.

E depois correu e abraçou o seu pai,
E o seu pai o abraçou e o beijou também.
E eu não pude deixar de ver neles dois
O mesmo bicho manso, carinhoso e sem maldade:

Eram sem sombra de dúvida o meu pai.