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o encontro

a cena está para o olhar, é criada por quem a vê. e cada pessoa do lugar estrangeiro que só ela ocupa no mundo vai enxergar na cena algo diferente e novo.
na cena cabe muita coisa! para vê-la toda, é preciso somar olhares, como neste encontro que somos todos nós.

Ponto de encontro

No interior, a política local é naturalmente um lugar do encontro.

Não há como evitar os vizinhos desse condomínio que é a pequena cidade, ou vê-los apenas de longe, passeando no feed de uma rede social qualquer.

É preciso organizar o espaço comum, dividir a calçada, a cortesia nas festas da comunidade e até o ar que se respira nos poucos consultórios do lugar.

Obviamente, há sempre paranoicos percorrendo os quarteirões. Mas eles tendem a ser marginalizados e esquecidos pela maioria - ou se tornam figuras folclóricas bastante conhecidas, desde que tomem diariamente o seu remédio.

As pessoas, quando compartilham o mesmo espaço, tornam-se politicamente pragmáticas e consideravelmente mais gentis umas com as outras, perdendo quase toda a sua agressividade ideológica, assim como a sua eventual ideologia de agressividade.

Não é como no Twitter ou no Facebook, onde você pode xingar os adversários dos outros partidos à vontade sem ter medo de encontrá-los quando, logo ao sair de casa, botar…

O que se passa quando não se passa nada

Fazer um coração saudável
bater mais forte na vida
é algo banal,
incomparavelmente mais
do que num romance.
Acontece várias vezes ao dia
sem que alguma ação,
nem mesmo uma após a outra,
faça um autor parar de bocejar.
Mas você e eu
conseguimos imaginá-las:

1. um cão late inesperadamente
enquanto você caminha distraído,

2. você quase bate o carro
porque foi ver uma mensagem no celular,

3. enxerga do outro lado da rua
alguém que pode ser um bandido,

4. se irrita porque um colega de trabalho
é um tremendo cafajeste.

São muitos, os exemplos.
Em qualquer caso,
a emoção é garantida.

Nas redes sociais, o coração
anima-se ainda mais facilmente.
A pessoa, suponhamos, publica
dois ou três stories no Instagram.
Então passa o resto do dia
com o coração aos pulos -
será que alguém responderia?
Quem? Mais alguns pulos
no coração por isto.

Pode ser um velho amor,
o crush dos últimos dias,
a primeira mensagem de alguém, digamos,
interessante. Se isso merece
alguma cena de cinema?
A pessoa tenta lemb…

Falar para não morrer

Em Nova Iorque, onde a quantidade
de mortos ao dia é um pouco menor
que o total registrado aqui até agora,
começaram a enterrar em longas valas comuns
os mortos não reclamados.

Um caixote sobre o outro,
coluna após coluna, que,
depois de ajustadas no solo,
são cobertas com terra
por uma retroescavadeira.

Entre os vivos, não se vê ao redor
alguém chorando esses mortos.
Comentamos todos, horrorizados,
a cena uns para os outros -

procuramos saber se nos ouvem
aqueles que um dia, esperamos,
reclamem os nossos corpos
com respeito e saudade.

Demoras

1

Tentava há pouco me lembrar há quantos dias estamos em quarentena. Pelos meus cálculos, esta deve ser a terceira semana. Preciso anotar para não esquecer - este é um risco que começo a sentir agora.

Eu poderia consultar o site do governo a qualquer momento, é certo, mas assim eu deixaria de me ater à realidade - a memória conta sempre a história mais verdadeira quando precisamos conhecer as pessoas como elas são de fato.

2

Ontem uma amiga me falou que ganhamos, com a reclusão, a oportunidade de lançar um olhar mais delicado sobre as coisas. Agora há tempo para demoras, contemplações e gentilezas.

Eu entendo o que ela quis dizer. Sinto-me um pouco assim.

Não pude deixar de pensar porém, com uma certa vergonha, em nosso privilégio. Moramos à beira do campo, em casas com jardim, quintal e pouca gente. Podemos ser espaçosos.

E cada qual, nos labirintos da sua biblioteca, encontrou afortunadamente alguma alma mais valente que a sua, com quem aprendeu a não desviar o olhar de nada, isto …

Amor e Verdade

1

Já que durante a quarentena parece um exagero saudar alguém com um bom dia, outras formas de solidariedade têm sido adotadas. A que me chamou atenção logo de manhã chegou pelo WhatsApp: "agora é a hora da fé".

Escuto cada vez mais variações dessa frase, as quais, no entanto, não mudam o seu sentido. Quem não tem fé é duplamente perseguido, pelo terror e pelo vírus, ela sugere.

Por ser levemente mais curioso do que fervoroso, não pude deixar de lembrar de um velho amigo ateu. Como qualquer um de nós, ele pode vir a morrer infestado, mas não morrerá de medo, eu acho.

Semana passada, o Abreu comemorava a purificação dos ares e o regozijo das raias, que brincavam cruzando as ondas de uma praia, interditada estes dias para os humanos.

- Nós é que somos a peste, ele me disse, porém preferimos culpar a Deus ou ao Diabo, dependendo da ocasião.

2

- Devo reconhecer que Jesus é uma pessoa extremamente amável. Seria mais ainda se as igrejas não monopolizassem a sua amizade.

Ouvi do …

passatempo

por enquanto
você
está bem você acorda
encontra comida na geladeira
esquenta um café pra despertar
você trabalha não importa
se de casa você realiza
aprende algo novo
por enquanto
você
encontra tempo pra mais um dia
fazer a sua yoga
conversar com os amigos
ler um novo livro
toma coragem e decidi
finalmente começar
uma carreira como instagrammer
por enquanto
você
está bem a vida continua
sendo o que sempre foi
tudo aquilo que ocorre
por enquanto