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Com licença, poética

A 110a. edição da revista Diversos Afins traz três textos meus. Dois contos curtos, um deles uma fábula breve sobre a nossa vida social nos...

IDEALISMO


Seu corpo adoece, você
não. Luta contra ela, a doença,
e cai em si:
seu corpo é também outra coisa
que lhe acomete. A sua alma,
íntima e inviolável,
tão pouco lhe pertence.
Nela prospera um alienígena. Note,
quantas vezes você barganha com ela
"quero uma porção de alegria"
enquanto ela entrega-lhe apenas tristeza? Você,

essa ideia que nunca lhe deixa
ou passa
até que um dia
também passa.



Não superestime. O ser humano é mais contraditório do que hipócrita.


O servo teme tanto pelo seu serviço quanto o seu senhor - o rebelde também. Liberdade é servir sem servidão.

PALAVRAS AO VENTO


Muitos usam a palavra amor
e confiam bastante nela.
Eu não confio.
Eu confio em outras palavras dela.

Às vezes, se me proíbe um carinho,
Não quer se apegar, me explica.
E mesmo assim quer saber de mim - exige:
"Desembucha".

E depois que tanto falo,
sem clemência me responde:
"Não concordo totalmente".
Eu? Não me assusto com isso -
no seu rosto encontro sempre um sorriso.

E então eu confio.
E então eu entendo.
É assim que deve ser o amor.


Clichês, ansiolíticos e outras facilidades


Vou parar de fazer pouco caso, questionar e tripudiar de rótulos e clichês. Eles não merecem a má fama que comento. Devo reconhecer confortavelmente que sim, eles têm muita utilidade. Vou carregar alguns comigo por conveniência. Terei sempre esses bons ansiolíticos para distribuir aos companheiros de jornada, especialmente àqueles que caminham comigo não por sua livre escolha mas porque deram o azar de ter que compartilhar alguma obrigação com um notório ranzinza de bom humor.

Logo de manhã, se me responderem "tudo bem" e me perguntarem idem, não direi mais coisas do tipo "como de costume, nem tudo bem, mas por costume, tudo bem". É no mínimo desagradável para a maioria das pessoas, apesar de ser a mais pura verdade, ou talvez por ser exatamente isso - quem quer ser acordado de um sonho bom? Alguns indivíduos ficam levemente consternados e têm um tique nervoso na hora, outros ficam sem jeito, outros riem mas não sabem bem do que, talvez para parecerem espertos ou para não perderem a amizade ("não se deve fechar portas", "ninguém sabe o dia de amanhã", blá, blá, blá). Há inclusive quem pegue no seu pé e lhe acuse de ser um estraga-prazer. E o pior, lhe faça perder seu precioso tempo tendo que explicar o que o camarada não quer entender e até gostaria de silenciar se pudesse.

Não vale à pena tanto drama por causa de um simples rapapé. Nem mesmo aqui nesta crônica. Tenho mais o que fazer. Saco rápido o meu "bom dia, tudo bem", ponto, de praxe, tarja preta, pra boi dormir, e eles ficam alegres, e eles ficam satisfeitos, e eles ficam confiantes, e podem voltar tranquilamente ao seu tédio, e podem tomar as suas decisões como se estivessem fazendo escolhas de fato. E o melhor: me deixam ir catar a minha turma em paz.


Todo bobo tem sempre uma carta na manga. E é justamente você se achar esperto demais.

TIRA-TEIMA


Tenho a maior pena
da pessoa que mente pra mim.
Eu fico com uma verdade,
a coitada, com a mentira.


desapego


fazer um pouco de tudo
como quem faz um bocado de nada


RÉQUIEM EM SI MAIOR


1.

Não sou de reclamar, estou seguro,
Nem a vida louvo em demasia.
Atento, nela ainda mais encontro
Sempre um outro tanto de poesia.

Em um solene minuto de silêncio
Por exemplo - como demora -,
Vejo que os que falam a toda hora
Estão só a praticar um passatempo.

E no funeral em que muitos choram,
Percebo: é com os vivos que a morte anda -
Os mortos estão finalmente livres
Da mais severa pedagoga.

2.

Outro dia, com muito pesar me avisaram
Que o meu velho pai estava morto.
De fato, eu até vi no caixão um corpo,
Mas não era ele, isso eu tenho bem claro.

De manhã ainda, um pouco antes do velório,
Um belo garoto, cabeludo e castanho,
com muita alegria e doçura me falou:
Meu tio, é pra você ficar mais à vontade.

E depois correu e abraçou o seu pai,
E o seu pai o abraçou e o beijou também.
E eu não pude deixar de ver neles dois
O mesmo bicho manso, carinhoso e sem maldade:

Eram sem sombra de dúvida o meu pai.


CONVERSA FIADA


Um minuto de silêncio,
como demora -
falar, que belo passatempo.


O FUNERAL


É com os vivos que a morte anda.
Os mortos estão finalmente livres
da mais severa pedagoga.


Bruna Sales: Deixa ser (feat. Héber Sales)

Minha prima Bruna, 14 anos, me apareceu com quatro versos, um desafio. Escrevemos juntos então. A primeira estrofe é dela. A segunda, minha. Com palpites de lá pra cá e daqui pra lá.

O meu grande amor por ti
É maior que faroeste cabloco
É mais profundo que Clarice
Lispector, lindo: Marilyn Monroe.

E penso, é até injusto comparar assim.
Elas e eles, se de nós soubessem,
É que enamorados diriam: sim,
Que a poesia nos deixe ser como eles.


DUELO DA ESCOLA SEM PARTIDO


Héber Sales
Sobre a lei da escola sem partido
Posso falar, não sei se é loucura
A ideia até faz muito sentido
Nossos partidos não estão à altura

Robson Sales
Sobre a lei da escola sem partido
Não posso falar, pois acho que morro
A idéia até faz muito sentido
Acabe com as pulgas matando o cachorro

HS
Partidos sem educação, meu querido
Já temos muitos há muito tempo
O que nos faltava mesmo, veja bem
Eram essas belas escolas sem partido

RS
Se tivesse política sem partido
Ficava fácil política na educação.
Se tivesse liberdade de expressão
Chico e outros não teriam partido

HS
Não há porém quem exile a canção.
Se o seu coração foi partido
Por terem desse modo partido
Mais poesia ainda, foi o que salvou sua expressão

RS
O poeta que opinou e foi banido
Na escola, o formador de opinião
Dois heróis tidos por bandidos.
É o poder na mão do ladrão...

HS
Para o salafrário, já está advertido
Prepara um destino, o juiz Sérgio Moro
Um modelo de escola sem partido:
Prisão por roubo e falta de decoro

RS
A coisa tá assim desmantelada
É mesmo por falta de "couro"!
Se não esclarecer a meninada,
Mais sofrimento e muito mais choro.



canta a cigarra sozinha
hora da prece
na mais remota ermida



A bronca da arte com a beleza


A bronca da arte moderna com a beleza se explica. O artista está mais pra inventor do que pra decorador, e o poeta é mais um hacker da língua do que um beletrista. Era preciso deixar isso claro, nem que fosse a pontapés, urros, uivos e palavrões, no melhor estilo dadaísta. E ainda é, eu acho. O belo, o sublime e o sentimento são apenas brinquedos, assim como o físico. o metafísico e a vida. A brincadeira é o que interessa de fato ao artista. E é o que faz a diferença.
~
Para ir além: O mínimo denominador comum da arte