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Com licença, poética

A 110a. edição da revista Diversos Afins traz três textos meus. Dois contos curtos, um deles uma fábula breve sobre a nossa vida social nos...

psicossomático


o corpo é inocente.
ele não sabe mentir.
ingênuo, o coração,
pipa que no peito repousa,
uma brisa qualquer,
dessas que uma simples lembrança carrega,
já consegue fazer voar
(mais leve que o espírito, é a carne).



Em terra de cego, quem tem um olho é só.


Cúmplice é aquele que conquista o direito de nos contrariar sem perder a nossa confiança.

O estranho familiar


Sete aranhas, de tamanhos e idades variados - parecem todas membros de um mesmo clã - colonizaram cerca de um metro cúbico de ar improdutivo no fundo da sala, um pouco acima da janela, à direita. Nenhuma pessoa notou quando chegaram ali. Estenderam, furtivas, as suas teias e agora vivem de rendas. Uma delas, finíssima, parece bem jovem ainda e foi detectada por último, imóvel. Como desde então ninguém a viu se mexer e permanece pousada sobre o teto branco, cogita-se que talvez seja uma obra de grafite sobre a lápide do túmulo da família. Na verdade, há pouco movimento na propriedade. As demais aranhas também passam bastante tempo paradas, sem trabalho algum. A maior delas é muito grave e vive entregue a profundas meditações. Talvez esteja maquinando um novo sistema filosófico capaz de dar cabo de todas as ironias da existência. Embora pareçam medonhas e insensíveis, são de uma espécie que não faz mal a ninguém, apenas coletam de vez em quando os ingredientes necessários à sua dieta espartana, sem sal, açúcar ou tempero. O menino da casa, um naturalista amador, considera que, com isso, elas até cometem uma delicadeza, ajudando a manter a residência livre de pragas. A empregada doméstica, sob juramento, reconhece que não ocupam o espaço de ninguém, nem sequer tocam nos quadros ou arrastam as cortinas. A dona da casa, porém, insiste que as intrusas sejam desalojadas e pede reintegração de posse. O marido hesita - é um poeta.


Essa Tao leitura


- Que texto difícil... Não entendi quase nada!

- Que bom, sinal de que vai aprender muita coisa.

- ...

- Relaxe, é como um quebra-cabeça. Primeiro, você ignora as peças mais difíceis, praticando o desapego e a humildade. Vai juntando só as peças mais fáceis, todas elas, até que as mais difíceis se tornem fáceis também.


van gogh


na estrada por que nunca passou,
dar as costas ao sol
que se põe.

já não lhe importa mais a luz,
se o obriga ou fascina -
agora somente deseja sentir
o sopro azul da noite chegar

nessa estrada,
longa estrada,
por que nunca passou.



Teorias são janelas que se abrem para novas paisagens - e escondem tudo o mais. Abra o olho.

CRIAÇÃO


Não se disputa mais a razão.
Cada um está livre enfim
para viver o mistério.

Agora já não nos cega
a luz clara e falsa da certeza.
Podemos confiar no sonho
e na invenção.

A linguagem afinal
não foi feita
para revelar a verdade,
mas para realizar o impossível.


UM DIA


Um dia em que eu não tomasse
de manhã, nem um gole de café
e à mesa, um pouco mais me deixasse,
trocando o suco ou o leite
por um Languedoc-Roussillon.

Um dia em que eu não olhasse
as horas e, sem querer, saísse,
nem o clima buscasse
saber, nem como está você,
se respondeu ou não a mensagem
que lhe mandei ontem à noite, bem tarde
(nesse dia eu quero sair, só).

Um dia em que eu escrevesse
sem pretensão de publicar
ou mesmo, em pensamento,
mandar a alguém que fosse ler -
que eu escrevesse distraído
como quem respira somente
e não pensa
no que percebe pensar.



O que é uma sociedade pós-moderna? É aquela em que a igreja é secularizada e o mundo, sacralizado.



Ninguém é só feminista, esquerdista, direitista, liberal ou conservador. Mas quando usamos um rótulo desses, damos a chance para que os outros nos rotulem e reduzam a nossa humanidade a isso, um rótulo apenas.



O perfeito animal político é inviável: precisa dar poder aos outros se quiser ter em troca poder suficiente para não depender do poder de ninguém.



paciência
não é demora
é salvação


IDEALISMO


Seu corpo adoece, você
não. Luta contra ela, a doença,
e cai em si:
seu corpo é também outra coisa
que lhe acomete. A sua alma,
íntima e inviolável,
tão pouco lhe pertence.
Nela prospera um alienígena. Note,
quantas vezes você barganha com ela
"quero uma porção de alegria"
enquanto ela entrega-lhe apenas tristeza? Você,

essa ideia que nunca lhe deixa
ou passa
até que um dia
também passa.



Não superestime. O ser humano é mais contraditório do que hipócrita.