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Quem anda distraído não sonha acordado

Héber Sales


Muita gente diz: se você prestar atenção, vai perceber a realidade como ela é. Eu digo, porém, que se você de fato prestar atenção, primeiro, vai sonhar, e depois, se continuar atento, verá que a realidade e o sonho são feitos da mesma matéria.

Os que viajam com pressa não sabem disso. Para eles, a distância entre dois pontos é calculada em km ou minutos, elementos que da realidade nada têm. Não têm, por exemplo, aquelas quatro montanhas e três vales que separam a tua casa da minha. Se eles prestassem um pouco mais de atenção, veriam que a estrada, como a cidade, também conta com os seus quarteirões: depois de passar por três cumes, você dobra o último deles e chega onde eu moro.

Esse percurso pode ter os 23 km assinalados naquela placa oficial à beira do asfalto, ou pode ter muitos mais. Depende do estado de espírito de quem nele transita. A saudade, já descobrimos, costuma encompridar os caminhos. Também acontece de, por não desejarmos chegar logo, chegarmos mais rapidam…
Postagens recentes

O pícaro alegre

"Não existem palavras sem dono [...] Quem fala e em que circunstâncias fala - eis o que determina o sentido real da palavra. Todo significado direto e toda expressão direta são falsos e particularmente patéticos.

[...] às linguagens de todos os detentores do poder e dos estabelecidos na vida contrapõe-se  a linguagem do pícaro alegre, que reproduz parodicamente qualquer patético onde é necessário, mas que o neutraliza, que o afasta dos lábios pelo sorriso e pelo embuste. Ao zombar da mentira, ele a transforma num embuste alegre. A mentira é iluminada pela consciência irônica e parodia a si mesmo pela boca do pícaro alegre".

Bakhtin em "Teoria do Romance"

Hábito

Muita coisa acontece ao redor
Sem que eu me espante
Os dias se repetem
No mundo ordeiro e manso do hábito
Às vezes estou triste
Às vezes estou alegre
Quase sempre finjo
Isso me espanta


Antijargão

Quando nos primeiros versos eu sinto - é sentimento, e sentimento às vezes engana, você está avisado - que o poeta se esforça demais para exibir a sua destreza num certo jargão poético - o jargão do poeta contemporâneo, vanguardista e experimental por exemplo - eu perco o ânimo e procuro outra coisa para ler. Não é que a poesia não tenha os seus jargões. De fato, tem. Inúmeros. Mas somente no que servem como antijargão.

via Itapira

há quem prefira não subir os montes
ficar ao seu pé somente
em devoção eu vou adiante
pela serra reverente
a Mantiqueira me percorre

a calma confiança de uma montanha
a timidez alegre de um regato
um infante que insiste comigo
vamos brincar de esconde esconde