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A bronca do velho Buk contra a poesia


No dia 19 de maio de 1984, o poeta Charles Bukowski escreveu para William Packard, editor da New York Quarterly, uma carta* em que atacava com argumentos afiados a maior parte da poesia produzida no mundo até então. Sobraram poucas exceções. A bronca toda pode ser resumida em algumas poucas frases que copio abaixo.


"A poesia [que me mostraram na escola] simplesmente não era legal, era uma coisa falsa, não importava."
"Os poetas que eram enfiados nas nossas goelas eram imortais, mas não eram nem perigosos nem interessantes."
"A poesia nunca teve muitos atrativos, e ainda não tem. Sim, sim, eu sei, houve Li Po e alguns dos primeiros poetas chineses que conseguiam compactar grande emoção e grande verdade em poucos versos simples."
"Não acho que seja uma virtude especial o fato de um poema não poder ser entendido."
"A poesia pode ser divertida, pode ser escrita com clareza espantosa, não entendo por que precisa ser de outro jeito, mas é."
"Há uma razão pela qual muitas pessoas não leem poesia. A razão é que o troço é feito mal e frouxamente. Quem sabe os criadores mais enérgicos tenham se dedicado à música ou prosa ou pintura, escultura? Pelo menos vez por outra, nessas áreas, alguém rompe as paredes rançosas."
"Eu mantenho distância dos poetas. [...] Ali estavam [poetas] que deviam estar produzindo palavras de verve e sabedoria e exploração e eles não passavam de babacas doentes."
"Alguns deles estavam escrevendo certa poesia que arriscava um pouco, gritava, parecia estar abrindo caminho na direção de algo. [...] alguns deles começavam tão bem... agora eu olhava em volta e eles tinham sido ingeridos, digeridos, sugeridos, molestados conquistados, trivializados."
"A resistência é mais importante do que a verdade porque sem a resistência não pode haver verdade alguma. E a verdade significa ir até o fim pra valer. Dessa maneira a própria morte não é nada quando nos agarra."

E o velho Buk não apenas protestava. Fazia a coisa acontecer. Como no poema O pássaro azul.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo, fique aí, não deixarei
que ninguém o veja.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas eu despejo uísque sobre ele e inalo
fumaça de cigarro
e as putas e os atendentes dos bares
e das mercearias
nunca saberão que
ele está
lá dentro.

há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou duro demais com ele,
eu digo,
fique aí, quer acabar
comigo?
quer foder com minha
escrita?
quer arruinar a venda dos meus livros na
Europa?
há um pássaro azul em meu peito que
quer sair
mas sou bastante esperto, deixo que ele saia
somente em algumas noites
quando todos estão dormindo.
eu digo, sei que você está aí,
então não fique
triste.

depois o coloco de volta em seu lugar,
mas ele ainda canta um pouquinho
lá dentro, não deixo que morra
completamente
e nós dormimos juntos
assim
com nosso pacto secreto
e isto é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?


* Essa é uma das muitas cartas que Bukowski escreveu entre 1945 e 1993. Elas foram publicadas no Brasil pela L&PM Editores, no livro Escrever para não enlouquecer.


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