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O poeta


Sete aranhas, de tamanhos e idades variados - parecem todas parentes uma da outra - colonizaram cerca de um metro cúbico de ar improdutivo no fundo da sala, um pouco acima da janela, à direita. Nenhuma pessoa notou quando chegaram ali. Estenderam, furtivas, as suas teias e agora vivem de rendas. Uma delas, finíssima, parece bem jovem ainda e foi detectada por último, imóvel. Como desde então ninguém a viu se mexer e permanece quieta sobre o teto branco, cogita-se que talvez seja um desenho delicadamente talhado sobre o mausoléu da família. Na verdade, há pouco movimento na propriedade. As demais aranhas também passam bastante tempo paradas, sem trabalho algum. A maior delas é muito grave e vive entregue a profundas reflexões - talvez esteja maquinando um novo sistema filosófico capaz de dar cabo de todas as ironias da existência. Embora pareçam medonhas e insensíveis, são de uma espécie que não faz mal a ninguém, apenas coletam de vez em quando os ingredientes necessários à sua dieta espartana, sem sal, açúcar ou tempero. O menino da casa, um naturalista amador, considera que, com isso, elas até cometem uma delicadeza, ajudando a manter a residência livre de pragas. A empregada doméstica, sob juramento, reconhece que não ocupam o espaço de ninguém, nem sequer tocam nos quadros ou arrastam as cortinas. A dona da casa, porém, insiste que as intrusas sejam desalojadas e pede reintegração de posse. O marido hesita, admirado ainda - é um poeta.


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Natureza humana

1

Lampeja a minha noite
Um anjo a piscar o olho insone
Vem chamar-me à janela
Com doce falar de sonhos

Toma-me a mão e me leva
Muros não podem detê-lo
Faz-me um andarilho da lua
Ser como a luz da estrela

2

Já vem chegando a manhã
Logo a cidade desperta
"A noite é uma doce maçã"
O anjo convida a mordê-la

Sinto a manhã derradeira
Insisto com ele por que
O estranho me diz é apenas
A tua natureza humana
.

Wordtrack for a long play

Na próxima quarta-feira, 07/06, às 21:00, farei a primeira apresentação do meu solo de spoken word Quem anda distraído não sonha acordado, no XIX Seminário de Línguas e Literatura do curso de Letras do UNASP, em Engenheiro Coelho.

O pocket show, que mistura alguns dos meus poemas e crônicas com músicas remixadas, seria lançado no dia 08/07 apenas, no Espaço Luzeart, em Mogi Guaçu, mas decidi fazer uma pré-estréia ao ser convidado para esse evento. A performance propõe, por meio de uma experiência estética, uma reflexão sobre a imaginação literária. O set list do espetáculo, vocês podem ouvir aqui.