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Foucault sobre a literatura moderna

“O que se anuncia [na literatura votada ao ser da linguagem] é que o homem é “finito” e que, alcançando o ápice de toda palavra possível, não é ao coração de si mesmo que ele chega, mas às margens do que o limita: nesta região onde ronda a morte, onde o pensamento se extingue, onde a promessa da origem recua indefinidamente. “[...] neste espaço assim posto a descoberto, a literatura, com o surrealismo primeiramente (mas sob uma forma ainda bem travestida), depois, cada vez mais puramente, com Kafka, com Bataille, com Blanchot, se deu como experiência: como experiência da morte (e no elemento da morte), do pensamento impensável (e na sua presença inacessível), da repetição (da inocência originária, sempre lá, no extremo mais próximo da linguagem e sempre o mais afastado); como experiência da finitude (apreendida na abertura e na coerção dessa finitude).” Michel Foucault. “As Palavras e as Coisas - Uma Arqueologia das Ciências Humanas”.

a gratidão

fogo e paixão, como vês a mesma voragem a mesma mesquinhez andar com coragem viver e deixar viver - do amor, querer mais o que? sempre que der: um abraço forte ser grato por cada momento de sorte

a tentação

pedir baixinho uma bênção é uma bela conversão espera confiante no amor há porém o sacerdote  que avulta-lhe a soma: medo, culpa e penitência três selos solenes no passaporte da chancelaria do inferno                       vade   retro!

iniciação

escrever na língua do silêncio não tem muito mistério sobre uma folha de papel em branco coloca-se as palavras mesmo uma após a outra vão surgindo entrelinhas que é onde se diz qualquer coisa sem que ninguém nos veja sem que ninguém nos ouça

De novo, e de novo

Scott tem a mania de perseguir qualquer coisa móvel que cruze o seu horizonte, não importa a distância - ele enxerga longe, muito longe, algo incomum entre os cães que eu já tive. Por isso, procuro ver antes dele o que acontece ao redor. Ao menor sinal de gente, prendo-o logo na guia. De uns tempos para cá, comecei a notar que ele tem atendido um pouco mais ao comando vem. Hoje finalmente, apostando no seu discernimento, decidi, um pouco vacilante ainda, que não iria mais contê-lo. Num primeiro momento, achei fácil manter a minha posição, as pessoas caminhavam a uma distância segura, do outro lado de um campo largo, a quase duzentos metros. Quando ele as avistou, porém, partiu no rumo delas, embora sem muita convicção, pois também havia percebido que eu tomara repentinamente o sentido oposto - tentei mostrar determinação em meu movimento, o que lhe faltava naquele instante. Num átimo, enquanto eu ia falando "vem!" sem olhar para trás, ele tomou a decisão certa, deu mei...

As palavras e as coisas

A pandemia vai abolindo o sim e o não, mesmo sob o protesto generalizado das pessoas - preferimos o erro à incerteza, contanto que possamos manter a pose. De foice em punho, a mais severa pedagoga observa o doloroso aprendizado, aproximando-se às vezes um pouco mais de um sujeito ou de outro, a quem examina com minúcia. Ontem ainda, alguns destes se entusiasmaram com uma notícia alvissareira: a manchete anunciava que raramente os indivíduos assintomáticos transmitem o vírus. Hoje, um punhado de autoridades correu para esclarecer a sutil diferença entre pré-sintomáticos e assintomáticos enquanto a foice descia lentamente em direção ao pescoço de alguns alunos impacientes e cheios de razão.