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Um lugar para lembrar


O lugar mais próximo
de qualquer cidade em que você tenha vivido antes
é a memória.
Voltar e não achar
as coisas do jeito que já foram um dia
é finalmente viajar
para muito longe.

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O que é um poema

Um poema é aquele texto cujo significado não pode ser dito a não ser daquela maneira, afirmou Ferreira Gullar nesta entrevista.

É uma tese ousada, que desafia o senso comum, tão acostumados que estamos a entender um discurso qualquer por meio de um outro que o explique, como se uma coisa valesse pela outra. Merece uma boa discussão.


Se aceitamos a ideia do poeta, podemos questionar de que serve a leitura crítica de um poema se o seu significado não pode ser expresso de uma outra forma. E o que dizer da tradução? Impossível.

Mas a definição do Gullar tem o mérito de revelar de que padecem os poetas em seus devaneios líricos: a troca de uma palavra apenas, uma só vírgula que mude de lugar, um ponto final que se ponha ou se tire, a recorrência de um som ao longo de um trecho, um verso com uma sílaba a menos, etc. - qualquer uma dessas pequeninas coisas podem alterar o significado de um poema.

De certo modo, essa não é uma experiência estranha às nossas conversas do dia a dia, quando bagu…

A bronca do velho Buk contra a poesia

No dia 19 de maio de 1984, o poeta Charles Bukowski escreveu para William Packard, editor da New York Quarterly, uma carta* em que atacava com argumentos afiados a maior parte da poesia produzida no mundo até então. Sobraram poucas exceções. A bronca toda pode ser resumida em algumas poucas frases que copio abaixo.


"A poesia [que me mostraram na escola] simplesmente não era legal, era uma coisa falsa, não importava." "Os poetas que eram enfiados nas nossas goelas eram imortais, mas não eram nem perigosos nem interessantes." "A poesia nunca teve muitos atrativos, e ainda não tem. Sim, sim, eu sei, houve Li Po e alguns dos primeiros poetas chineses que conseguiam compactar grande emoção e grande verdade em poucos versos simples." "Não acho que seja uma virtude especial o fato de um poema não poder ser entendido." "A poesia pode ser divertida, pode ser escrita com clareza espantosa, não entendo por que precisa ser de outro jeito, mas é."…

O escritor como um filho da puta

John Berger no The Guardian, em 12/12/2014:
"A linguagem é um corpo, uma criatura viva, cuja fisionomia é verbal e as entranhas, linguísticas [...].  Depois de escrever algumas poucas linhas, eu deixo as palavras escorregarem de volta para dentro da criatura. E ali, elas são imediatamente reconhecidas e saudadas por uma hóstia de outras palavras com quem elas têm uma afinidade semântica, ou uma relação de oposição, ou de metáfora ou de aliteração ou de ritmo. Eu ouço a sua confabulação. Em assembléia, elas estão debatendo o uso que eu fiz das palavras que escolhi. Elas estão questionando os papéis que lhes atribuí.  Então eu modifico as linhas, mudo uma palavra ou duas, e submeto-as novamente à criatura. Outra confabulação inicia-se. E a coisa segue assim até que se ouve um suave murmúrio de consentimento provisório. Então eu sigo para o próximo parágrafo.  Outra confabulação inicia-se...  As pessoas podem me chamar de escritor à vontade. Para mim mesmo, eu sou o filho de uma pu…