Pular para o conteúdo principal

O mergulho


Ser poeta é um outro modo
de praticar apnéia.
É preciso ter fôlego, resistir
à ânsia de emergir
e só vir à tona quando 
um canto impreterível.

No abismo, muitas palavras
se oferecerão a ti. O vate
permitirá a cada uma delas
impregná-lo com sortilégios.
Trará no entanto à superfície
apenas aquele verso
cuja exata melodia evoca
os dois destinos do mergulho.
.

Comentários

Alexandre Sousa disse…
Espetacular! Lembrou-me uma coisinha que escrevi: http://escrevendoesemeando.blogspot.com/2011/01/o-que-vem-de-dentro.html

Que Deus o abençoe, poeta!
Jefferson disse…
Boa tarde! Gostei muito dos seus poemas, gostaria de convidá-lo a participar do blog http://designdipoesia.com.br/
um projeto colaborativo onde uma pessoa escreve um texto (poesia, poema, literatura, matéria) e outra pessoa ilustra (arte, colagem, desenho, foto)

enfim, está feito o convite! Abraço!
Jefferson

Postagens mais visitadas deste blog

Wordtrack for a long play

Na próxima quarta-feira, 07/06, às 21:00, farei a primeira apresentação do meu solo de spoken word Quem anda distraído não sonha acordado, no XIX Seminário de Línguas e Literatura do curso de Letras do UNASP, em Engenheiro Coelho.

O pocket show, que mistura alguns dos meus poemas e crônicas com músicas remixadas, seria lançado no dia 08/07 apenas, no Espaço Luzeart, em Mogi Guaçu, mas decidi fazer uma pré-estréia ao ser convidado para esse evento. A performance propõe, por meio de uma experiência estética, uma reflexão sobre a imaginação literária. O set list do espetáculo, vocês podem ouvir aqui.

Quem anda distraído não sonha acordado

Héber Sales


Muita gente diz: se você prestar atenção, vai perceber a realidade como ela é. Eu digo, porém, que se você de fato prestar atenção, primeiro, vai sonhar, e depois, se continuar atento, verá que a realidade e o sonho são feitos da mesma matéria.

Os que viajam com pressa não sabem disso. Para eles, a distância entre dois pontos é calculada em km ou minutos, elementos que da realidade nada têm. Não têm, por exemplo, aquelas quatro montanhas e três vales que separam a tua casa da minha. Se eles prestassem um pouco mais de atenção, veriam que a estrada, como a cidade, também conta com os seus quarteirões: depois de passar por três cumes, você dobra o último deles e chega onde eu moro.

Esse percurso pode ter os 23 km assinalados naquela placa oficial à beira do asfalto, ou pode ter muitos mais. Depende do estado de espírito de quem nele transita. A saudade, já descobrimos, costuma encompridar os caminhos. Também acontece de, por não desejarmos chegar logo, chegarmos mais rapidam…

A memória

Ontem vieram-me à mente, cenas das férias que na infância eu passava na fazenda com os meus primos, em Pernambuco. Não senti nostalgia - não como a que faz a gente querer voltar ao passado. Somente achei insólito que tudo aquilo tivesse mesmo acontecido. Talvez porque a minha vida tenha mudado muito desde então, pareceram-me momentos irreais. Estranhamente, me pareceram eternos também. Julguei a morte inconcebível, se não para todos os homens, com certeza para aqueles intrépidos meninos de engenho. Por isso, eu pensei de repente: dos lugares que podemos visitar neste mundo, a memória é o mais próximo da eternidade.